Pilares do III Simpósio Preta e Nerd Academy: Luciano Jorge
Como rolar os dados do RPG dentro da sala de aula e para fora da narrativa “padrão”?
Esse texto não existiria se, em 25/04/2019 – Dia do Orgulho Nerd, o professor Luciano Jorge de Jesus não tivesse indicado o perfil Preta Nerd & Burning Hell em uma publicação que celebrava esse dia. Nossa jornada é marcada pela colaboração, direta e indireta, no Preta & Nerd e pela amizade. Nesse processo, tive a oportunidade de mediar e participar da mesa Descolonização e Ficção Científica com ele, durante o nosso I Simpósio Preta e Nerd Academy, no qual ele recebeu um convite e nos agraciou com seu conhecimento, na edição inaugural do nosso evento. Hoje, temos a honra de recebê-lo e homenageá-lo como um Pilar da nossa terceira edição. Luciano é mineiro, atleticano, professor de Educação Física da rede pública, colaborador do Jornal Empoderado, membro do Observatório Racial do Futebol, mestre em Estudos do Lazer pela UFMG, especialista em Lima Barreto, dono do canal Jogos e Quilombagens (Twitch e Youtube) e intelectual da área de RPG. Dentro dessa ampla atuação múltipla, nos inspiramos mais detidamente na sua jornada como professor, intelectual e mestre de RPG para a formação da mesa “RPG e formação de comunidade – construção de personagem como exercício de alteridade”.
A HISTÓRIA DE ORIGEM DE LUCIANO NO RPG
Assim como eu (e muitos de nós), Luciano começou a jogar RPG com os amigos na região metropolitana de Belo Horizonte e se deparou com um cenário repleto de estereótipos. Esse é, historicamente, um espaço pertencente à ideia do nerd “padrão” — um adolescente, homem, branco, hétero, classe média alta. Entretanto, na cena, é possível identificar uma dominância do nerd “padrão”; é sempre necessária uma disputa, através da nerdiandade (Quiangala, 2014), para poder existir nesses espaços, corporal e narrativamente. Conforme ele nos diz em sua entrevista ao canal Sofá Azul: “ A galera na periferia, gente, sempre amou mangá, anime, K-pop, RPG, quadrinhos, videogames, Yu-Gi-Oh, esses trem tudo. A molecada sempre curtiu e sempre vai curtir.” (Jesus, 2023, 5min20s, transcrição nossa). Podemos, então, destacar que desde o início da sua trajetória no RPG, Luciano Jorge teve uma experiência como outsider, mesmo jogando campanhas em casa, com seus amigos pretos, na periferia, e com o apoio da mãe. Ele afirma que se distanciou um pouco do jogo durante o início da vida adulta, mas teve no seu reencontro com a cena no Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte (FIQ-BH), no qual se encontrou com JM Trevisan e Rogério Saladino e, anos depois, foi convidado a escrever na Revista Dragão Brasil sobre o Afrofuturismo e RPG (Jesus, 2022). Sobre essa questão, Luciano afirma: “Caminhando com isso, surgiram os debates na cena do RPG, que é uma cena muito branca, muito branca. É uma cena que tem apresentado boas alternativas para minorias políticas, mas ela é muito centrada na figura do homem branco hétero. Mas isso tem mudado muito, né. Tem uma galera preta que está aí; tem uma moçada LGBTQIA+, tem muita mina trans jogando RPG, criando conteúdo, escrevendo; tem muita mulher escrevendo jogos excelentes; tem muita gente preta escrevendo muita coisa boa, propondo coisas boas. Aí, nesse tempo, eu começo a ir articulando e pensando, dando aula e, na escola, pensando: Será que dá pra meter esse RPG aí também? Será que dá pra pensar em alguma coisa? Mas, com projetos mais específicos e algo mais esporádico?” (Jesus, 2022, 1h03min17s, transcrição nossa). Portanto, podemos perceber que a atuação de Luciano no RPG perpassa três níveis intelectuais: jogador, pensador e professor. E todas essas funções são articuladas para que ele forjasse sua própria maneira de inserir-se nesses espaços, sempre atuando numa perspectiva afrocentrada e antirracista.

DESAFIANDO A “NARRATIVA PADRÃO” DO RPG DE MESA
Conforme afirma Habeeb (2025), a narrativa da masmorra padrão no RPG de mesa é colonial, pois, para além das tentativas de inclusão e diversidade, a própria mecânica baseia-se na exploração e na pilhagem. Nesse sentido, a participação de pessoas outsiders nessa cena é importante porque tensiona as narrativas “padrão” ao inserir pessoas que não foram, inicialmente, concebidas para participar ativamente daquele cenário. “Como os ‘Outros’ da sociedade, aqueles que nunca poderão ser realmente parte dela, os estranhos [outsiders] ameaçam a ordem moral e social. Ao mesmo tempo, são fundamentais para sua sobrevivência, porque os indivíduos que estão à margem são os que explicitam os limites da sociedade.” (Collins, 2019, p. 136). Assim como para a comunidade Preta & Nerd, o afrofuturismo é uma ferramenta fundamental para Luciano Jorge como um pensador sobre o RPG, pensando em como pessoas negras podem participar da construção dessas narrativas e em como retirar os personagens negros do seu papel de Outro ou mesmo de representações cheias de estereótipos. “Quando pensamos em afrofuturismo, a gente pensa em um modo de romper com essa ideia. Não simplesmente porque o personagem negro vai ser protagonista, mas porque a sua voz é essencial para a narrativa, para contar histórias, para poder imaginar. […]. O afrofuturismo é a possibilidade do povo preto contar as suas próprias histórias, imaginando, construindo uma nova ideia de futuro, recorrendo ao passado para ter certeza de qual é o seu presente. (Jesus, 2019, 01min37s, 11min45s transcrição nossa).
E a sala de aula? A utilização do RPG na sala de aula pelo professor Luciano não parte só de uma visão de implementação de “metodologias ativas” impostas pelas políticas educacionais neoliberais, mas da sua própria práxis. “Então, dali a gente pensou em projeto e tal, a gente bolou um projeto e seguiu por seis meses jogando para a gente fechar uma narrativa. E a ideia era a gente continuar para que esses meninos tivessem elementos legais para que pudessem jogar mesas entre eles e tal, para dar autonomia e pensar nesse lugar. E aí, tentar fomentar mais um espaço de lazer. Porque o que, às vezes, eu noto para essa moçada é que a ausência de política pública para o lazer, para dar acesso à biblioteca, para dar acesso à animação cultural, para dar acesso a uma boa pista de skate ou a uma quadra de futebol bacana, às vezes isso não está posto. Porque a política está pensada no lugar do não-fazer para essa moçada e de desinvestir desse direito fundamental. E aí, quando a gente constrói esses espaços na escola, por exemplo, é por isso que a escola é importante.” (Jesus, 2022, 1h06min55s, transcrição nossa). Esse processo dialógico da educação e lazer (Freire, 1987), priorizando a sala de aula, mas não se restringindo a ela, faz parte da inserção da realidade dos estudantes no processo de construção do conhecimento e de uma educação crítica e significativa. Conforme Luciano demonstra em sua fala, o RPG representa uma forma de acesso ao direito ao lazer, de forma mais abrangente, e também de construção crítica e de percepção de identidade, especificamente, quando estamos construindo os personagens. “Em nossas aventuras de RPG, a construção de bons personagens, longas campanhas, aventuras em eventos, aventuras curtas, pensando em homens e mulheres pretas em uma noção mais ampla, precisa romper com o perigo da história única. Contudo, ao construirmos personagens com essa perspectiva, seremos incentivados a pensar e consumir cenários afrocentrados. Ou seja, Wakanda, o Recôncavo Baiano, o quilombo de Palmares, ou a Nova Orleans da década de 30 do século passado apresentariam novas (e riquíssimas) questões.” (Jesus, 2018, online, grifo do autor).

Tanto a produção teórica como a prática de Luciano me encorajaram a também utilizar o RPG como ferramenta nas minhas aulas de História e acredito que possa inspirar outras pessoas que fazem parte da nossa comunidade. O professor Luciano Jorge também estará presente nesta edição do simpósio no Grupo de Trabalho sobre RPG com o trabalho intitulado “Como contar histórias diante de um espelho retorcido?”, que será mais uma oportunidade de podermos aprender ainda mais sobre sua construção intelectual sobre RPG. Quem não quiser perder é só se inscrever gratuitamente como ouvinte no III Simpósio Preta e Nerd Academy (caso deseje receber certificado) ou simplesmente acompanhar as transmissões via Twitch e Youtube.
BIBLIOGRAFIA
COLLINS, Patricia Hill. Pensamento Feminista Negro. Tradução de Jamille Pinheiro Dias. São Paulo: Boitempo, 2019.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1987.
HABEEB. the default dungeon is colonial. In Lowercase.17 dez. 2025. Disponível em: https://substack.com/home/post/p-181858972 .Acesso em: 24 out. 2026.
JESUS, Luciano Jorge. #Telefonemas – Luciano Jorge de Jesus. Youtube, 12 de abril de 2022. 1 Vídeo (01h42min43s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=AynJ7cSFPr8 .Acesso em: 24 out. 2026.
JESUS, Luciano Jorge. Afrofuturismo na sua narrativa | PunkVerso TV #7. Youtube, 13 de dezembro de 2019. 1 Vídeo (12min37s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Gk9fHS-lheg&t=9s. Acesso em: 24 out. 2026.
JESUS, Luciano Jorge. Mãe tô no Sofá Azul! Luciano Jorge de Jesus aqui. Youtube, 22 de fevereiro de 2023. 1 Vídeo (24min14s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=QErmXJuYo38&t=363s.Acesso em: 24 out. 2026.
JESUS, Luciano Jorge. Personagens Pretas no RPG. Jornal Empoderado, 2018. Disponível em: https://jornalempoderado.com.br/personagens-pretas-no-rpg/ .Acesso em: 24 out. 2026.
QUIANGALA, Anne Caroline. Introduzinho a minha #nerdiandade. 2014. Disponível em: https://pretaenerd.com.br/2014/12/introduzindo-a-minha-nerdiandade/. Acesso em: 17 de setembro de 2026.
